OS PÁSSAROS ESTÃO ESTRAGADOS

by José Valente

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OS PÁSSAROS ESTÃO ESTRAGADOS

"Pássaros estragados

A ideia de que os pássaros não voam para a liberdade quando lhes abrimos a porta da gaiola não é só um facto que podemos experimentar com o canário da nossa tia, é algo que acontece todos os dias, connosco, de uma forma ou de outra. Na verdade, conformamo-nos com a realidade em que vivemos, a nossa gaiola, e somos incapazes de a recusar. Até porque isto nos parece uma impossibilidade: negá-la. Mas a realidade faz-se precisamente daquilo que não é real, daquilo que hoje ainda não é possível mas que será uma realidade no futuro. Tememos esse passo. Se nos abrirem a gaiola, votamos nas mesmas pessoas, encostados às grades da gaiola onde sempre vivemos, receamos a mudança, a novidade, uma nova melodia que nos possa fazer experimentar uma felicidade primordial, algo que deveríamos sentir como se fosse a nossa natureza, como se fizesse parte de nós, assim como fazem parte de nós o coração, os ossos, o pâncreas. O céu mete-nos medo. Os discursos políticos, sociais, tem servido para estragarem a nossa essência, tal como o fazem com pássaros em gaiolas. Estragam-nos. Deixamos de arriscar um voo, e, no limite, de cantar. O que o José Valente propõe é um caminho através da música, uma passadeira feita com viola. Da gaiola para o céu. Uns centímetros quadrados de hábitos funestos estão irremediavelmente longe do infinito da liberdade, do céu. E, no entanto, bastava-nos percorrer uns centímetros para poder, de repente, abrir asas e furar nuvens, voar pelo espaço da nossa liberdade, por todas as possibilidades que o mundo fora da gaiola nos oferece. A música é um caminho porque, como na verdade toda a cultura, é redentora, nos eleva, constrói a realidade. Porque a realidade não é o mundo em que vivemos é o mundo que há-de vir. Quando Moisés pergunta a Deus quem deverá anunciar aos israelitas, Deus responde a apontar para o futuro: Eu sou o que serei. Recusar o nosso presente é um dever, porque este presente não é a realidade. É uma gaiola. A porta está aberta e há música à nossa espera. O José está à saída a chamar-nos com a viola."

Afonso Cruz (escritor)

"Pode ser que as andorinhas voltem

Certa vez, perguntaram a Karlheinz Stockhausen o que tinha ele aprendido com o tempo de estudo passado com o compositor Olivier Messiaen. Com a sua proverbial arrogância, o autor de “Kontakte” respondeu. «Aprendi a não me aproximar mais do canto dos pássaros.» Apesar da referência alada, não se pode dizer que o espaço musical ocupado por José Valente seja o mesmo de Messiaen, nem que a sua música marcada pela improvisação e influenciada pelo jazz constitua uma ruptura equivalente à operada pelo alemão. Se o mestre deste baseou mesmo as suas partituras no piar das aves, aquelas a que Valente alude – as do escritor Afonso Cruz em “Boneca de Kokoschka” – são silenciosas. Não cantam, estão «estragadas».
Bem que o propósito do violetista de Coimbra radicado no Porto seja o de «voltar a ensinar os pássaros a cantar», como se lê nos diálogos de Cruz que inspiram este projecto a solo. Mas há uma diferença substancial: Messiaen viveu duas guerras mundiais e os seus bombardeamentos, pelo que os sons em que se refugiou foram os da Natureza, enquanto José Valente habita um mundo «desfeito nestas cinzas todas». Um mundo barulhento, sem dúvida, mas com o ruído que nos rodeia tornando ensurdecedor o silêncio que habita todas as coisas. O tempo de Valente não é, decididamente, o tempo de Messiaen e nem sequer o de Stockhausen. É um tempo “de depois”, em que a vontade de voltar a ouvir o cântico dos ares parece duvidar de si própria e da sua força transformadora.
E no entanto… No entanto há por aqui um rouxinol que canta. Há nesta música algo que sobrevive à última tentativa que se fez de criar música com os pássaros, a de Paul Panhuysen, que com a Canary Grand Band processou electronicamente as melodias de quatro canários. Estes ficavam tão excitados com o imediatista tratamento digital dos sons por eles produzidos que sofriam fulminantes colapsos cardíacos, levando ao abandono do projecto. Se em “Os Pássaros Estão Estragados” pressentimos o espectro da morte, há nele uma centelha de vida a tornar-se fogueira. Pode ser que, no próximo ano, as andorinhas voltem…"

Rui Eduardo Paes
(ensaísta, crítico de música)

credits

released October 9, 2015

OS PÁSSAROS ESTÃO ESTRAGADOS
influenciado por um texto com o mesmo título de Afonso Cruz, do livro “A Boneca de Kokoschka”, Quetzal Editora.

Uma Edição JACC Records


Composição, Viola d’arco, Voz e electrónica: José Valente.
Voz nas faixas 4 e 9: Ricardo Seiça.
Sonoplastia nas faixas 1, 6 e 10: Pedro Adamastor.

Produção: José Valente e João Pedro Miranda.
Pré-produção: José Valente e José Edgar Martins.
Produção Executiva: Jacc Records.

Imagem: Paulo Mendes

Imagens reproduzidas no CD: Paulo Mendes

Na concepção visual deste projeto musical, na sua apresentação gráfica e videográfica que vai acompanhar a sua exibição pública, foram utilizadas imagens de obras ou detalhes de obras de:
António Olaio www.antonioolaio.com
Marta Bernardes
Paulo Mendes www.paulomendes.org
Pedro Bandeira www.pedrobandeira.info
Realização vídeo e montagem: Israel Pimenta e Paulo Mendes
Apoio à produção: Pedro Treno
Design: Joana Monteiro
Agenciamento: Murmurio Booking

www.josevalente.com

Em memória de Eduardo Sardinha (1970 – 2014), escritor, conselheiro, ouvinte rigoroso e grande amigo.

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Track Name: Embalo Apagado
Estamos Gratos (José Valente/Revisão: Marta Bernardes)

Estamos gratos por ter fome.
Estamos gratos por ter sede.
Estamos gratos por não termos tecto.
Estamos gratos por não curarmos a doença da minha avó.
Estamos gratos por não cantar.
Estamos gratos por não ouvir.
E também estamos gratos por obedecer.

Estamos gratos por não vermos o céu.
Estamos gratos por não vermos o mar.
Estamos gratos por não reconhecermos as cores.
Estamos gratos...
Entretanto a minha avó morreu.
Estamos gratos...
E estamos gratos por não chorar.
Porque as lágrimas são caras e podem-se beber.
Estamos gratos por estarmos vivos sem termos a certeza disso,
Estamos gratos, ainda, por não poder morrer.
Track Name: Cadeira do Bonifácio
Bonifaz Vogel (Afonso Cruz)*

Bonifaz Vogel
Numa cadeira de palha
Era como um
Elefante
Numa loja de cristais.